ouvir com atenção, por favor.
13 de Junho de 2009
7 de Março de 2009
Bom dia, bairro.
Chegava à sexta rua, depois do arco, olhava para cima abismada e dizia bem alto "Bom dia, bairro!". Parecia contraditório dizer bom dia ao bairro da noite, mas não é mentira que também vive de dia, e se vive!
O bairro não é sujo, como muitos o vêm. Tem sempre quem tome conta dele e o lave com o cuidado que merece. Cada vez que ia ter com a dona Isabel, mesmo enquanto chovia, lá estavam eles, os senhores amarelos, a lavar cada cantinho do bairro. Cuidavam dele como se lhes pertencesse e no coração traziam guardado cada momento que nele viveram.
Que bom que era poder entrar em qualquer porta, e, ao encontrar gentes antigas, pedir, sem qualquer tipo de explicações, "conte-me a sua história". Como eu gostava de ler os poemas do senhor José, e de ouvir as divagações do senhor António acerca da vida dos velhos. Que bem que sabia rir com as brincadeiras da dona Marlene, e arrancar uma gargalhada ao velho Rosário, que já não podia ver a beleza do bairro.
O bairro não tem só velhos, também tem crianças, para lhe darem vida. Jogavam à bola de um varandim para outro, e escondiam-se dos pais nas esquinas das ruelas.
Por vezes, quando regressava a casa, encontrava, perto do papelão, o senhor Chamorro, que deitava para a reciclagem os livros e jornais do dia. Pedia-lhe sempre que antes de os deitar fora, me lesse as palavras mais bonitas que encontrara, para que pudesse ir para casa com o sabor do bairro nos ouvidos.
Antes de me encontrar com ele, para bebermos um chá, passeava-me pelas ruas íngremes e altas do bairro e começava a ouvir cá dentro, num sussurro "o bairro do amor é feito a lápis de cor", e na minha cabeça, toda aquela beleza se transformava num emaranhado de rabiscos coloridos.
Os dias acabavam com festas no cabelo, e a frase que me enchia o coração: "É bonito ver como as pequenas coisas te fazem tão feliz!".
7 de Janeiro de 2009
O peso das palavras.
Não escrevi antes com medo que as palavras se tornassem mais fortes que eu, e se mostrassem como eu não queria que fossem vistas.
Tenho visto muitos filmes, ultimamente. Filmes que tinha para aqui gravados, mas aos quais nunca dei grande importância. Antes preferia entreter-me lá fora, com a natureza. Observava os movimentos das nuvens e as formas que assumiam, deliciava-me com o som das folhas ao tocarem o chão, com o cheiro das flores coloridas do meu jardim, ou com o toque das gotas frias da chuva nas minhas mãos. Passados tantos anos sinto que já aprendi toda a natureza, já a conheço melhor que me conheço a mim. Tenho o tempo que me resta para aprender sobre as pessoas, sobre relações, sobre a vida. Coisas complicadas essas, se tudo o que vivi não chegou para as compreender. Sento-me no pequeno sofá da sala, coberto pela manta que a minha mãe me fez, já há tantos anos. Encho os olhos com as imagens bonitas dos filmes, as mãos com a textura rugosa das fotografias, o nariz com o cheiro a mofo dos livros que me fizeram a vida, e os ouvidos com aquelas músicas capazes de me transportar para os mais mágicos lugares, que tristemente me convenço nunca ter chegado a conhecer, enquanto saboreio uma chávena de chá. Vejo e revejo os filmes que preenchem a pouca mobília da sala. É nestes momentos que agradeço a minha fraca memória, que me deixa ver um filme duas vezes na mesma semana, sem sequer me recordar de pequenos flashes.
Sempre tive problemas de memória. Todos os meus amigos troçavam de mim. Lembro-me da minha médica de família, que, logo no primeiro dia em que me conheceu, ao se aperceber da minha falta de memória, me diagnosticou de imediato uma depressão, justificando-se com o facto de que apenas as pessoas infelizes e insatisfeitas se esquecem de tudo e mais alguma coisa. Sem qualquer margem para explicações da minha parte, obrigou-me a tomar uns comprimidos enormes ao pequeno-almoço, na época de exames. Na verdade, as décimas a mais que atingi durante aqueles três meses em que vivi sobre o efeito de drogas, ainda que naturais, não me tornaram uma melhor fisioterapeuta. Hoje sei que a minha fraca memória a longo prazo não poderia nunca ter resultado de uma depressão, a não ser que tenha vivido em depressão permanente toda a minha vida, o que me parece pouco provável. Os problemas de memória acompanharam-me ao longo de toda a minha vida, e não apenas nos atabalhoados anos de faculdade. Lembro-me dos meus utentes, que, conhecendo já a minha baralhada memória, se riam às gargalhadas quando passados alguns meses de recuperação me iam visitar, como forma de agradecimento, e eu nunca me lembrava do problema que os levara até mim. Confundia luxações com fracturas, membros superiores com ancas, meses com semanas. Uma verdadeira baralhação. Tinha a sorte de nunca me esquecer nem das caras, nem dos nomes dos utentes, e, dessa forma, não perder o meu emprego.
Parece que o compartimento da minha memória que guarda pessoas sempre se manteve em óptimas condições. Recordo todos os rostos que cruzaram os meus olhos, mesmo que apenas por breves segundos.
Lembro-me de todas as personagens das histórias de amor que vivi, e até mesmo das que não cheguei a viver. Nunca recuperei completamente de cada relação acabada, e mesmo passados alguns anos e já com outra pessoa, continuava a não me esquecer das relações passadas. Recordava pequenos pormenores, e tinha saudades. Ainda hoje as tenho. Tenho sempre saudades do cruzar embaraçoso de olhares, das festas nos cabelos e nas mãos, das cócegas nos pés, das cavalitas e dos abraços. Hoje sei porque nenhuma dessas relações teve um final feliz. Nasci sem o dom do amor. Nunca soube lidar com o dia-a-dia de uma relação, a ideia de estar com a mesma pessoa todos os dias sufoca-me. Sempre me fartei das pessoas com uma facilidade enorme. Lembro-me de inventar desculpas para não sair com os meus amigos simplesmente por me sentir farta deles. Nunca me entreguei como estavam à espera que me entregasse, acabando sempre por me tornar num motivo de desilusão. Só agora compreendo como era egoísta. Naquela altura não compreendia, e todo o amor cá de dentro se transformava em ódio, acabando por se infiltrar na minha cabeça como um estranho sentimento.
Como não tive sorte no amor, a ideia de um cozinheiro perfeito que me preparasse todas as refeições do dia foi-se desmoronando na minha cabeça, e tive, inevitavelmente, que aprender a cozinhar. Ao início foi doloroso. Deixei queimar uns quantos empadões, as sopas saíam muito piores do que as das cantinas das escolas, e o arroz mais desfeito que as papas para bebés. Com a prática as coisas foram melhorando, e hoje posso dizer que sou quase tão boa cozinheira como era a minha mãe. Lembro-me de me dizerem que nunca ia ser uma mulher. E, na verdade, houve uma parte de mim que continuou sempre criança, não deixando nunca que me tratassem como uma mulher normal. Ainda hoje me dizem que pareço uma criança. Ainda hoje não percebo porquê. Será pelo constante mau estado das minhas pernas, sempre inundadas de nódoas-negras? Ou pelos meus sapatos, que nunca tiveram o mínimo salto? Talvez seja pelas minhas gargalhadas barulhentas, que põem todos os olhos em mim e todas as bocas com um sorriso; ou pelos meus espirros, que pedem um ice-tea, ou um atum, dependendo do meu estado de humor; ou até pela forma estranha como me sento, sempre toda torcida.
Tantos anos passaram, e agora, aqui sentada, sinto-me como se estivesse há muito tempo enrolada numa enorme onda de água. Vou-me lembrando do que fui e do que me falta ser, e os vasos do coração entrelaçam-se, formando um grande nó. A minha veia na testa à Julia Roberts torna-se mais saliente, o meu dente morto mais amarelo, e as duas proeminências do meu nariz mais afiadas.
Lembro-me, inesperadamente, de como todos falavam da beleza e da sinceridade do meu sorriso, que eu nunca cheguei a compreender. O nó no coração vai alargando, a veia da testa deixa de ser visível, o meu dente morto embranquece, e as proeminências do nariz desaparecem.
E cada vez que estas transformações se dão, sinto os ossos mais fortes e as articulações menos perras. A minha respiração torna-se menos ofegante, e sinto falta do ar puro. Então saio de casa, e regresso à natureza.Volto a aprender tudo o que dela já sei, sem nunca me cansar.
24 de Outubro de 2008
"Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz."
Saint-Exupéry, O Principezinho
21 de Outubro de 2008
Não sejas plasticina.
Não sejas plasticina!
Não sejas plasticina!
Não sejas plasticina!
Não sejas plasticina!
Não sejas plasticina!
9 de Outubro de 2008
28 de Setembro de 2008
25 de Agosto de 2008
Gira que gira e torna a girar.
O senhor João observava, encantado, a vila do cimo do seu terraço, quando reparou no que se passava na viela do lado.
- Maria!, Maria! O que andas a fazer? - gritou.
A Dona Maria, surpreendida com tanta gritaria, olhou, com os maiores olhos que tinha, para cima da sua cabeça, e ao ver o senhor João naquela euforia, disse, calmamente:
- Estou a tirar os caracóis do meio da rua, para que ninguém os pise.
- Deixa lá os caracóis, tens que vir cá acima ver isto!
- Faz um esforço, vais ver que vale a pena.
Pouco convicta, mas com a curiosidade a subir-lhe o corpo, olhou em frente e rapidamente os seus olhos transmitiram à sua cabeça o que viam: o Monte Evereste, mais íngreme que nunca. Respirou fundo, e pisou o primeiro degrau. Levava o mundo dos sonhos na mão esquerda, e com a direita pedia ajuda ao corrimão. Cansada, mas com os olhos mais brilhantes que a água translucida que corria na fonte, subiu o último degrau.
Num silêncio harmonioso, sentaram-se os dois no muro do terraço, e, aquecidos pelos raios-de-luz que brotavam do final da tarde, foram, esquecidos do que eram, duas pequenas crianças, que brincavam, encantadas, com blocos feitos de sonho.
16 de Agosto de 2008
De que valeram os cinco-e-meio?
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Cinco-e-meio.
Ali estou eu, a olhar para ti com o meu maior sorriso. Não me vês? Ali! Hei??
Parece que já reparaste em mim. Começas a caminhar na minha direcção, sobre os teus passos calmos e despretensiosos. Esboças um sorriso.
Caminhas. Caminhas. Caminhas. Caminhas.
E eu cada vez mais Longe. Longe. Longe. Longe.
A tua cabeça desiste de manter o corpo acordado.
As pernas não se movem. O coração pára. Os olhos abrem-se.
Vais-me perdendo nas espirais de cores que rodam dentro dos teus olhos.
Sabes que nunca me vais encontrar, mas não choras.
Agora, de olhos bem abertos, vagueias por um conhecimento ainda desconhecido, um espaço assustador, mas que te fascina.
Como foi que deixaste que os teus olhos me perdessem?
15 de Julho de 2008
Palavras com cor.
13 de Julho de 2008
Qual é o acorde da tua alma?
14 de Junho de 2008
A mulher de vermelho.
Acende um cigarro e pede-lhe que a acompanhe até que apareça o comboio, e ele, obediente, não a deixa sozinha. Enquanto passeia a sua cor vermelha pelos azulejos já velhos da plataforma da estação, o cabelo comprido esvoaça-lhe timidamente sobre as costas, fazendo lembrar o pequeno melro na sua primeira aventura pela independência, enquanto o fumo do cigarro se desvanece na cor azul do céu. Passados sete minutos, os seus olhos pretos avistam o comboio no horizonte imaginário. Ela agradece ao companheiro de espera com uma última baforada, e, em modo de despedida, aconchega-o com o salto pontiagudo do sapato.
O comboio, quase vazio, ou não muito cheio, vai atracando suavemente, esperando que ela se aproxime da sua carruagem predilecta. O lugar inanimado do andar de baixo está ainda vazio, à espera que ela o avive com a sua cor vermelha ao longo da extensa viagem.
Não estranha o cheiro vazio que o comboio traz.
Para aqueles lados nunca foi muita gente.
4 de Maio de 2008
2 de Março de 2008
21 de Fevereiro de 2008
Uma gaivota pousa na chaminé do prédio da frente. Fixo os meus olhos nos seus movimentos. Quase não se move, parece gostar da chuva. Além do cheiro a terra molhada que o trecho aberto da janela deixa entrar, sinto o teu cheiro, vindo não-sei-bem-de-onde. Fecho os olhos para o conseguir sentir melhor.
Já não chove. Os meus olhos continuam fixos na gaivota pousada na chaminé. Por momentos assusto-me. Sob ela já não existe o prédio azul e branco plantado em frente do meu. Existe agora uma casinha rasteira, feita de pedacinhos de tecido. Esboço um suspiro de alívio, quando nos vejo. Eu e tu ou tu e eu, como queiras.
Era a nossa casa. Vivíamos num mundo feito por nós. Tu imaginavas, e eu fazia. Utilizava os mais variados materiais para fazer qualquer coisa. E tu imaginavas qualquer coisa a todo o momento. Mesmo até enquanto dormias.
Fizemos a nossa casa, e tudo o que nela morava: os cortinados, os tapetes, as mantas, o telefone, os talheres e os pratos. Fazíamos a nossa roupa e a cor dos nossos cabelos dependia da temperatura lá fora. Não tínhamos mobília nem espelhos.
Consegui convencer-te a imaginares um gato sem pêlo e que não gostasse de perseguir passarinhos. Imaginaste-o em algodão, pintado de preto, com dois grandes botões azuis no lugar dos olhos e esparguete como fonte de equilíbrio. Eu dei-lhe um nome e tu vida. Depois quis fazer-te uma surpresa: um canário. Fi-lo com papel colorido em origami, como tu me ensinaste. Só não soube dar-lhe vida. Só tu tinhas essa magia, de dar vida às coisas.
Tinhas começado a imaginar personagens, todas elas com características únicas. Imaginavas xilofones que falavam, peixinhos encantados, anões coloridos e bruxas más. Também imaginavas pessoas. Pessoas com pernas demasiado compridas, ou com uma cabeça demasiado grande, com uma mão maior que outra ou quase sem polegar. Imaginavas as pessoas todas sem coração. Eu perguntava-te porquê e tu dizias-me que as pessoas eram más. Eu fazia as tuas personagens tal-e-qual como tu as imaginavas e tu pedias-me que lhes desse nomes. Era uma tarefa fácil: bastava olhar uns segundos para elas e concentrar-me na informação que os meus olhos transmitiam à minha cabeça. E depois, ao tratá-las pelo nome, conseguía perceber porque se chamavam assim e não de outra-forma-qualquer, como acontecia com a maioria dos objectos (porque é que o lápis se chama lápis e não nuvem?). Depois imaginavas histórias, que batias nas teclas de sabão da maquina de escrever, com medo de te esqueceres de algum pormenor importante. Inventavas passados e presentes, cruzavas vidas e histórias. Quando gostavas do resultado, corrias e ias buscar a tua câmara de filmar à prateleira dos objectos de plasticina. E ali mesmo fazias um filme, que me fazia rir, ou chorar, ou ter medo. E eu gostava sempre mais dos que me faziam saborear o sal líquido dos meus olhos.
Já cansados, sentávamo-nos no nosso cantinho aconchegado por mantas e almofadas e punhamo-lO a cantar para nós, no gira-discos de madeira, pintado a vermelho. Eu bebia um chá, tu um café. Não o acabavas sem acender um cigarro. Não me cansava de falar de como te faziam mal, no meu discurso demasiado saudável e assertivo. Davas-me um beijo na testa. Os meus olhos faziam-se o mais zangados que conseguíam (não era fácil). Às vezes corria atrás de ti para to tirar, mas tu escapavas-me sempre.
Pedias-me que te tocasse uma melodia no nosso piano, feito com os pacotes do açúcar que nos adoçava os dias. Às vezes improvisava, outras, mesmo sem eu querer, os meus dedos rodopiavam numa dança mecânica, produzindo os sons exactos da flauta mágica. Nunca te cansavas de a ouvir, e pedias-me sempre que repetisse. Quando via que abrias demasiado a boca e fechavas demasiado os olhos, os meus dedos despediam-se das leves teclas do piano e os meus pés caminhavam na tua direcção. Enroscávamo-nos um no outro, e eu fazia-te festas no cabelo.
Os vidros estão demasiado embaciados para que eu consiga ver o que se passa lá fora. Desenterro a minha cabeça da janela e limpo o nariz frio com a manga da camisola.
Os meus olhos continuam fixos na gaivota pousada na chaminé.
A chuva continua a cair lá fora.
18 de Janeiro de 2008
O Sol de lá.
E mais. E mais. E mais.
Entrei no comboio e tive a certeza que hoje a chegada a casa seria bem diferente da dos outros dias: sentia-me muito mais quentinha.
Que saudades do sol a queimar-me a pele.
23 de Dezembro de 2007
Está frio aí dentro?
15 de Dezembro de 2007
Encontros com gentes de outro tempo.
- Ah.. Olá! Há tanto tempo que não te via. Está tudo a correr bem?
-Sim, e contigo?
-Também.
- [Silêncio.]
-Bem, então adeus!
- Adeus!
Mudou de melodia e continuou o seu caminho...
- Olá!
- Olá! Estás boa?
- Sim, e tu?
- Também! Estás tão gira!
- Oh..
- [Silêncio.]
- Então adeus.
- Adeus.
Seguiu em frente, mas desta vez sem qualquer melodia a sair-lhe por entre os dentes. As palavras congelaram, com tanto frio.
As conversas que antes eram tudo, tornaram-se em quase nada. As palavras somem-se das bocas. Não há movimento, não há som. O que há é apenas um silêncio embaraçante, um total congelar.
As gentes mudaram.
As melodias acabaram.
As conversas, essas, são agora sempre as mesmas.
Tenho pena que assim seja.
8 de Dezembro de 2007
Nouvelle Vague.
4 de Dezembro de 2007
Donna Maria, A 'música para ser humano'.
O novo álbum dos Donna Maria, Música Para Ser Humano, já está pronto a ser levado para casa.
Cheira-me a um bom presente de Natal, a abarrotar de bonita música portuguesa.
O single de apresentação, 'Há amores assim':
Ouvindo: Musica para ser humano.
30 de Novembro de 2007
29 de Agosto de 2007
Desenlacemos as mãos.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
(...)
Ricardo Reis
Ouvindo: The Cure- Lovesong.
10 de Agosto de 2007
O País das cores.
Aqui o céu é sempre azul. Pelo menos há quem o veja sempre assim.
É muito triste serem raros os portugueses que preferem conhecer o seu próprio país antes de mergulhar nas águas límpidas das Caraíbas, passear pelas românticas ruas de Paris, ou percorrer Veneza de gôndola.
E há ainda tantos cantinhos destes para descobrir aqui, no País das cores.
Ouvindo: Sia- Butterflies.
9 de Agosto de 2007
28 de Julho de 2007
História de gente antiga.
Levanto-me, e inspiro o mais fundo que consigo. A coragem não me vai faltar desta vez. Desta vez não.
E vou torcendo para que o corpo não se vire contra a cabeça, ou a cabeça contra o corpo, e iniciem ali uma guerra aberta, na qual ganharia aquele que quisesse voltar para trás e sentar-se novamente naquela relva. Vou torcendo para que as pernas não tremam, fazendo com que todo o mecanismo inconsciente que a marcha suporta se transforme num conjunto de movimentos planeados, visualizados mentalmente e só depois realizados. Vou torcendo para que o coração não bata demasiado depressa, para não me obrigar a senti-lo na barriga, na testa, nos braços.
À medida que me aproximo penso na melhor forma de o arrancar daquele estado de concentração, que só ele percebe. Penso numa forma violenta: um grito. Penso melhor. Acho o grito demasiado violento. Penso numa tosse seca do género (tentei encontrar letras em forma de onomatopeia que a expressassem, não consegui. nunca me dei bem com a tradução de sons estranhos para letras.). Mas depois caio em mim e penso que o som dos meus passos bastará para captar a atenção do pobre velho.
Engano-me. Nem com os meus pequenos pés já dentro do seu campo de visão ele ergue a cabeça.
A minha mão, num movimento demasiado rápido e involuntário, pousa sobre o seu ombro direito, como que a gritar freneticamente 'Hei! Eu estou aqui!!'. É neste momento que o pobre homem deixa de olhar o chão que pisa e fixa os seus grandes olhos azuis nos meus pequenos olhos castanhos, que ficam ainda mais pequenos por todo o embaraço sentido.
Digo-lhe olá. Ele cospe também um seco olá, sem fazer qualquer tipo de pergunta acerca da minha origem. Sento-me na relva, em frente ao seu banco de estimação. E, passados alguns segundos de um silêncio cortante, pergunto-lhe se me pode contar a sua história. E ele conta.
O sol põe-se, e ele ainda conta a sua história. As primeiras estrelas nascem no céu liso daquela noite quente, e ele ainda conta a sua história. Todas as luzes do jardim se acendem, e ele ainda conta a sua história. Os primeiros raios de sol aparecem no horizonte, quando a boca do velho prenuncia palavras que me são demasiado conhecidas 'E aqui estou, sentado neste banco do jardim, debruçado sobre as minhas pernas, num estado de concentração que só eu percebo'.
Toda aquela noite sentada na relva do jardim, a ouvir aquele velho que há tanto tempo observo, me parece demasiado mágica para acabar só assim. Com sorte, trago dentro da mochila pregada de botões, a minha velha máquina de rolo. E assim fica registado este momento. Mas, para mim, não é o suficiente. Dou um beijo de gratidão na testa enrugada do velho. Recebo um sorriso. Parto numa correria incansável à procura da máquina de escrever.
Lembro-me da casa de fim-de-semana da minha tia. Lembro-me da minha infância passada naquele sótão, a brincar com borrachas que eram escovas-de-dentes, que eram afias, que eram dados. Lembro-me da máquina-de-escrever, que combinava tão bem com a secretária de pinho sobre a qual pousava. A minha corrida torna-se ainda mais rápida, avivada pelas bonitas memórias.
Avisto finalmente a casa de pedra da minha infância. Salto o portão. Ninguém em casa. Não me fico. Pego no primeiro objecto com aparência perigosa que os meus pequenos olhos avistam e espeto-o na janela de vidro, que dá para a cozinha. Subo as escadas de ferro em caracol o mais rápido que consigo. Ao ver a porta pequena dentro da casa de banho lembro-me do medo que ela me provocava. Faziam-me acreditar que era dentro daquela porta que moravam os anões da branca de neve. E eu acreditava. O medo apaga-se, e a memória também. Olho para o meu lado esquerdo. Era ali. Entro, e ah! lá estava ela, sobre a mesma secretária de pinho que a minha memória desenhara.
Sento-me na cadeira, também de pinho, que completa a secretária. O papel já está posto. Tem um aspecto velho e amarelo. Não me importo. Sento-me e escrevo. O sol volta-se a pôr, e eu ainda escrevo. As primeiras estrelas voltam a nascer, e eu ainda escrevo. Todas as luzes lá fora se acendem, e eu ainda escrevo. Os primeiros raios de sol voltam a aparecer no horizonte quando os meus dedos, já cansados, tocam em letras que me são demasiado conhecidas.
Guardo todas as folhas de papel velho e amarelo na mochila. Olho para o colchão encostado à parede. Parece-me acolhedor. Derrubo-o e deito-me mesmo assim.
As pernas e os braços não mexem mais, de tão satisfeitos que estão.
A cabeça não pensa mais, de tão satisfeita que está.
O coração, esse, continua a bater demasiado depressa.
Ouvindo: Radiohead- Idioteque.
10 de Julho de 2007
Três.
Três anos é uma eternidade, para alguns. E um abrir- e -fechar- de- olhos, para outros.
Muitas vezes passo os olhos pelas tuas letras meio verdes, meio azuis. E fecho-os logo a seguir. Fico minutos com eles fechados, a imaginar-me de novo naquelas histórias, naqueles momentos. E custa, mas sabe tão bem. Sinto que cá dentro o coração se arrasta de um lado para o outro, entre o passado e o presente.
O passado e o presente não se entendem, discutem e maltratam-se tantas vezes. Mas o presente ganha sempre. E o coração pára sempre no meio do peito, ligeiramente inclinado para o lado esquerdo.
Três anos.
Parabéns, uma vez mais.
Ouvindo: Jorge Palma- Na terra dos sonhos.
6 de Maio de 2007
Espera por mim, Tempo.
Acelera quando eu já não aguentar mais. Abranda quando eu sentir que nada me sabe tão bem.
Mas por favor, não me deixes perdida por aí, sentada numa nuvem que agora já não existe, por entre memórias que já não o são.
Um som já quase apagado entranha-se-me no ouvido esquerdo. Tick- tock, ouço. É o som dos teus passos. Já vais longe. Já passaste a minha nuvem.
Tenho que correr.
Espera por mim!
Ouvindo: Tick- tock. Tick- tock.
30 de Março de 2007
Placebo e Arctic Monkeys (de novo) em Portugal !
Placebo- dia 19 de Maio no festival Creamfields Lisboa
Arctic Monkeys- dia 18 de Julho no Coliseu de Lisboa
Algo me diz que este ano vou ficar sem dinheiro para comer.. !
19 de Fevereiro de 2007
Revivi-a durante um play
Fui buscar a caixa mágica. Não a abri, porque já é aberta. Assim custa menos, dizem. E é verdade. Não é fácil abrir uma caixa destas.
E comecei. Fui tirando, aos poucos, todas as tiras de papel brilhante que enchiam a caixa, ao mesmo tempo que nelas entrava, cantarolando aquele play, que me tocava aos ouvidos. Entrei em todas, mesmo naquelas que não chegaram a fazer parte de mim. E como entrei, também saí. Quando dei por mim, e voltei a ouvir a minha voz novamente, estava rodeada de tiras de papel brilhante, espalhadas pelo chão de madeira do meu quarto. E a caixa mágica, que é aberta, tão vazia. E o play, que ainda não o tinha deixado de ser.
Arrumei todas as tiras de papel brilhante na caixa mágica. Tentei arrumá-las tal e qual como estavam antes de nelas entrar. Um tentar totalmente em vão. Mas a caixa, que é aberta, ficou mais que cheia, tal e qual como estava, e isso é o mais importante.
Antes de pegar nela, e levá-la para o seu sítio, roubei-lhe uma tira de papel brilhante, a mais brilhante de todas. Roubei-a e guardei-a no coração. Espero que não se importe. Quase de certeza que não irá notar, está mais que cheia, tal e qual como estava. A minha língua continuava a mexer-se, produzindo sons em uníssono com o play.
Peguei na caixa das tiras de papel brilhante e levei-a para o seu sítio, aquecido por trapos que já ninguém usa.
Voltei ao chão do meu quarto. O som calou-se. O play transformou-se em stop. E a minha língua congelou.
Revivi-a durante um play. Dezoito anos, quase dezanove durante um simples toque no maior dos botões. Dezoito anos, quase dezanove durante doze músicas.
E ainda tive tempo de arrumar tudo o mais direitinho que consegui.
E olhem que arrumar uma caixa destas custa.
E fechá-la, ainda mais ...! (mas esta, esta é aberta.)
Ouvindo: Donna Maria.
10 de Fevereiro de 2007
E ri-me.
Subi as escadas lentamente, assim com os dois pés a tocarem cada degrau, como fazem as crianças pequenas. Eram muitas, mas eu subi-as todinhas, sem tocar uma vez que fosse no corrimão. Sim, fiquei demasiado feliz, porque os corrimões são os meus melhores amigos, quando se trata de subir escadas. O céu estava azul, daquele azul clarinho que eu tanto gosto, e o sol brilhava como nunca.
Cheguei finalmente ao cimo das escadas, um grande manto verde se estendia diante mim. Que fiz? Deitei-me, rebolei-me, esperneei-me, dei cambalhotas. E ri-me. Ri-me às gargalhadas bem fortes. E ri-me ainda mais do meu próprio rir. Rir faz tão bem, sabes? E ali fui feliz. Ali, onde o verde da relva, o amarelo do sol, e o azul do céu se juntaram a todas as minhas cores. Sim, porque eu, às vezes, sou um arco-íris.
Fico por aqui, se não vem a chuva, e é uma chatice. E que me perdoem os meninos e as meninas da chuva, mas eu não consigo gostar nem um bocadinho dela.
Hoje não me apetece um final triste.
1 de Fevereiro de 2007
Escape Myself.
Solução? Tentar outra alma. Ou outro corpo, quem sabe.
[ estive ausente, mas a culpa não foi minha. os computadores... enfim, eles..! ]

Ouvindo: eu também já não oiço.







