21 de Novembro de 2009

Só por ser Outono vou chamar-te meu amor.

Lembro-me do meu primeiro dejà vu. Um caixote do lixo no Jardim Gulbenkian. Tarde de Outono, em tons amarelos, laranjas e castanhos. Passeava, pela primeira vez, na relva quase seca daquele Jardim. Reparo, inconscientemente, num dos caixotes do lixo. Aquele caixote do lixo. A estranha sensação de familiaridade a crescer dentro de mim. Eu conheço aquele caixote do lixo, pensei. Eu nunca estive aqui, repensei imediatamente. Este dilema a queimar-me a cabeça. Poderia ser qualquer outro caixote do lixo. Os caixotes do lixo não são todos iguais? Claro que não. As pessoas também são todas iguais? Não, mas com as pessoas é diferente. Diferente… é agora diferente! Por mais que pareçam iguais, cada caixote do lixo tem as suas próprias características e peculiaridades. E este é aquele, consigo reconhecer perfeitamente as suas tiras castanhas gastas e compridas. É este o tronco da árvore que o suporta, impedindo que o forte vento de Novembro o tombe a qualquer momento. É este. Tento lembrar-me do que vem a seguir, mas não sou capaz. A única imagem que é projectada nas minhas pálpebras, ao se pousarem delicadamente sobre os olhos, é o caixote do lixo castanho. Tento esquecer aquela estranha sensação. Vou caminhando. Calço os ténis que a avó me deu. Há quantos anos? A mim já não me crescem os pés. E, sem me aperceber, vejo-me abraçada por mais de uma dúzia de pessoas. Uma de cada vez. Abraço. Apenas a palavra. Uma bonita palavra. Vento. Terra. E Senti. Dentro de todos aqueles braços senti. Senti-me mais frágil. De vidro, de papel, de plástico. Frágil. Só particulas, não o todo. Moléculas? Átomos? Senti-me mais velha. Senti-me mais criança. Mais velha e mais criança ao mesmo tempo. Diferentes cheiros. O cheiro de todos. O cheiro de cada um. O teu cheiro, meu amor. Nas minhas mãos, no meu cabelo, no meu vestido, (no meu coração?). O teu cheiro em mim, meu amor. E eu que fechei os olhos. Bolas. Perdi o céu dos dias sem nuvens dos teus. Porquê? Parem, idiotas. Parem! Não está frio para isso. Nem calor. Também não está calor para isso. Parem! O suor dos meus olhos a escorrer-me pelas faces rosadas. Vou contar-lhe um segredo. Um segredo verdadeiramente estúpido. Não pode fazer troça de mim, prometa. Tem que prometer. Tenho medo de cães. Tenho muito medo de cães. Já sabia que ia fazer troça de mim. Sim, eu sei que os cães são queridos, mas eu tenho medo deles. Tenho medo de cães! Ainda bem que não se importa. Vou-lhe contar outro segredo. Posso? As pessoas que gostam de cães despertam em mim uma certa sensação de enjoo. Olhe, apetece-me vomitar. Não que não goste de si. A senhora não tem culpa. A verdade é que tenho muita vontade de vomitar. Desculpe. Até amanhã, ou qualquer dia. Até qualquer dia. Gatos? Sim. Os gatos sim. Sim, os gatos? Sim. Uma camada fina de céu ia pousando o Jardim. Uma corda, uma vassoura e uma folha de jornal. O frio. Já era tempo. De tempo frio. Já era tempo de tempo frio. A corda que me protegia o pescoço. Uma corda de lã. Quente, bem quente. A vassoura, uma almofada. Deve doer. Vassoura? Almofada? Varre o chão. Não, não o varras. A relva sabe melhor. Bem melhor. E o cobertor? Folha de jornal. Uma fina folha de jornal. Porque não?
Porque não?

13 de Junho de 2009

The movie on your eyelids.



ouvir com atenção, por favor.

7 de Março de 2009

Bom dia, bairro.

Subia as escadas e logo sentia o cheiro das castanhas a queimar-me a pele. O sol, que acabava de nascer, entrava-me pelos ouvidos numa bonita melodia e, enquanto caminhava, o som apressado dos passos das gentes transformava-se, acreditem, num aroma delicioso.
Chegava à sexta rua, depois do arco, olhava para cima abismada e dizia bem alto "Bom dia, bairro!". Parecia contraditório dizer bom dia ao bairro da noite, mas não é mentira que também vive de dia, e se vive!
O bairro não é sujo, como muitos o vêm. Tem sempre quem tome conta dele e o lave com o cuidado que merece. Cada vez que ia ter com a dona Isabel, mesmo enquanto chovia, lá estavam eles, os senhores amarelos, a lavar cada cantinho do bairro. Cuidavam dele como se lhes pertencesse e no coração traziam guardado cada momento que nele viveram.
Que bom que era poder entrar em qualquer porta, e, ao encontrar gentes antigas, pedir, sem qualquer tipo de explicações, "conte-me a sua história". Como eu gostava de ler os poemas do senhor José, e de ouvir as divagações do senhor António acerca da vida dos velhos. Que bem que sabia rir com as brincadeiras da dona Marlene, e arrancar uma gargalhada ao velho Rosário, que já não podia ver a beleza do bairro.
O bairro não tem só velhos, também tem crianças, para lhe darem vida. Jogavam à bola de um varandim para outro, e escondiam-se dos pais nas esquinas das ruelas.
Por vezes, quando regressava a casa, encontrava, perto do papelão, o senhor Chamorro, que deitava para a reciclagem os livros e jornais do dia. Pedia-lhe sempre que antes de os deitar fora, me lesse as palavras mais bonitas que encontrara, para que pudesse ir para casa com o sabor do bairro nos ouvidos.
Antes de me encontrar com ele, para bebermos um chá, passeava-me pelas ruas íngremes e altas do bairro e começava a ouvir cá dentro, num sussurro "o bairro do amor é feito a lápis de cor", e na minha cabeça, toda aquela beleza se transformava num emaranhado de rabiscos coloridos.
Os dias acabavam com festas no cabelo, e a frase que me enchia o coração: "É bonito ver como as pequenas coisas te fazem tão feliz!".

7 de Janeiro de 2009

O peso das palavras.

Não escrevi antes com medo que as palavras se tornassem mais fortes que eu, e se mostrassem como eu não queria que fossem vistas.
Tenho visto muitos filmes, ultimamente. Filmes que tinha para aqui gravados, mas aos quais nunca dei grande importância. Antes preferia entreter-me lá fora, com a natureza. Observava os movimentos das nuvens e as formas que assumiam, deliciava-me com o som das folhas ao tocarem o chão, com o cheiro das flores coloridas do meu jardim, ou com o toque das gotas frias da chuva nas minhas mãos. Passados tantos anos sinto que já aprendi toda a natureza, já a conheço melhor que me conheço a mim. Tenho o tempo que me resta para aprender sobre as pessoas, sobre relações, sobre a vida. Coisas complicadas essas, se tudo o que vivi não chegou para as compreender. Sento-me no pequeno sofá da sala, coberto pela manta que a minha mãe me fez, já há tantos anos. Encho os olhos com as imagens bonitas dos filmes, as mãos com a textura rugosa das fotografias, o nariz com o cheiro a mofo dos livros que me fizeram a vida, e os ouvidos com aquelas músicas capazes de me transportar para os mais mágicos lugares, que tristemente me convenço nunca ter chegado a conhecer, enquanto saboreio uma chávena de chá. Vejo e revejo os filmes que preenchem a pouca mobília da sala. É nestes momentos que agradeço a minha fraca memória, que me deixa ver um filme duas vezes na mesma semana, sem sequer me recordar de pequenos flashes.
Sempre tive problemas de memória. Todos os meus amigos troçavam de mim. Lembro-me da minha médica de família, que, logo no primeiro dia em que me conheceu, ao se aperceber da minha falta de memória, me diagnosticou de imediato uma depressão, justificando-se com o facto de que apenas as pessoas infelizes e insatisfeitas se esquecem de tudo e mais alguma coisa. Sem qualquer margem para explicações da minha parte, obrigou-me a tomar uns comprimidos enormes ao pequeno-almoço, na época de exames. Na verdade, as décimas a mais que atingi durante aqueles três meses em que vivi sobre o efeito de drogas, ainda que naturais, não me tornaram uma melhor fisioterapeuta. Hoje sei que a minha fraca memória a longo prazo não poderia nunca ter resultado de uma depressão, a não ser que tenha vivido em depressão permanente toda a minha vida, o que me parece pouco provável. Os problemas de memória acompanharam-me ao longo de toda a minha vida, e não apenas nos atabalhoados anos de faculdade. Lembro-me dos meus utentes, que, conhecendo já a minha baralhada memória, se riam às gargalhadas quando passados alguns meses de recuperação me iam visitar, como forma de agradecimento, e eu nunca me lembrava do problema que os levara até mim. Confundia luxações com fracturas, membros superiores com ancas, meses com semanas. Uma verdadeira baralhação. Tinha a sorte de nunca me esquecer nem das caras, nem dos nomes dos utentes, e, dessa forma, não perder o meu emprego.
Parece que o compartimento da minha memória que guarda pessoas sempre se manteve em óptimas condições. Recordo todos os rostos que cruzaram os meus olhos, mesmo que apenas por breves segundos.
Lembro-me de todas as personagens das histórias de amor que vivi, e até mesmo das que não cheguei a viver. Nunca recuperei completamente de cada relação acabada, e mesmo passados alguns anos e já com outra pessoa, continuava a não me esquecer das relações passadas. Recordava pequenos pormenores, e tinha saudades. Ainda hoje as tenho. Tenho sempre saudades do cruzar embaraçoso de olhares, das festas nos cabelos e nas mãos, das cócegas nos pés, das cavalitas e dos abraços. Hoje sei porque nenhuma dessas relações teve um final feliz. Nasci sem o dom do amor. Nunca soube lidar com o dia-a-dia de uma relação, a ideia de estar com a mesma pessoa todos os dias sufoca-me. Sempre me fartei das pessoas com uma facilidade enorme. Lembro-me de inventar desculpas para não sair com os meus amigos simplesmente por me sentir farta deles. Nunca me entreguei como estavam à espera que me entregasse, acabando sempre por me tornar num motivo de desilusão. Só agora compreendo como era egoísta. Naquela altura não compreendia, e todo o amor cá de dentro se transformava em ódio, acabando por se infiltrar na minha cabeça como um estranho sentimento.
Como não tive sorte no amor, a ideia de um cozinheiro perfeito que me preparasse todas as refeições do dia foi-se desmoronando na minha cabeça, e tive, inevitavelmente, que aprender a cozinhar. Ao início foi doloroso. Deixei queimar uns quantos empadões, as sopas saíam muito piores do que as das cantinas das escolas, e o arroz mais desfeito que as papas para bebés. Com a prática as coisas foram melhorando, e hoje posso dizer que sou quase tão boa cozinheira como era a minha mãe. Lembro-me de me dizerem que nunca ia ser uma mulher. E, na verdade, houve uma parte de mim que continuou sempre criança, não deixando nunca que me tratassem como uma mulher normal. Ainda hoje me dizem que pareço uma criança. Ainda hoje não percebo porquê. Será pelo constante mau estado das minhas pernas, sempre inundadas de nódoas-negras? Ou pelos meus sapatos, que nunca tiveram o mínimo salto? Talvez seja pelas minhas gargalhadas barulhentas, que põem todos os olhos em mim e todas as bocas com um sorriso; ou pelos meus espirros, que pedem um ice-tea, ou um atum, dependendo do meu estado de humor; ou até pela forma estranha como me sento, sempre toda torcida.
Tantos anos passaram, e agora, aqui sentada, sinto-me como se estivesse há muito tempo enrolada numa enorme onda de água. Vou-me lembrando do que fui e do que me falta ser, e os vasos do coração entrelaçam-se, formando um grande nó. A minha veia na testa à Julia Roberts torna-se mais saliente, o meu dente morto mais amarelo, e as duas proeminências do meu nariz mais afiadas.
Lembro-me, inesperadamente, de como todos falavam da beleza e da sinceridade do meu sorriso, que eu nunca cheguei a compreender. O nó no coração vai alargando, a veia da testa deixa de ser visível, o meu dente morto embranquece, e as proeminências do nariz desaparecem.
E cada vez que estas transformações se dão, sinto os ossos mais fortes e as articulações menos perras. A minha respiração torna-se menos ofegante, e sinto falta do ar puro. Então saio de casa, e regresso à natureza.Volto a aprender tudo o que dela já sei, sem nunca me cansar.

24 de Outubro de 2008


"Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz."



Saint-Exupé
ry, O Principezinho

21 de Outubro de 2008

Não sejas plasticina.

Não sejas plasticina, sussurrou-me ele ao ouvido, na sua voz trágico-doce. E estas palavras, tão vazias e, ao mesmo tempo, tão cheias, foram ecoando dentro da minha cabeça até hoje.

Não sejas plasticina!


Não sejas plasticina!

Não sejas plasticina!


Não sejas plasticina!


Não sejas plasticina!



Não, eu nunca vou ser plasticina.

9 de Outubro de 2008

Estique o joelho! Ombros para baixo! Calcanhar para o chão! Ombros para baixo! Estique o joelho! Amanhã deve chover. Tem chovido muito no resto do país. Até já houve inundações em Coimbra e no Porto. Na minha cabeça também. Ãh? Na minha cabeça também houve uma inundação. Uma grande inundação. Agora todos os pedacinhos pensantes estão a boiar lá dentro. Como numa sopa? Sim, como numa daquelas sopas medonhas das cantinas das escolas. Água e legumes a boiar. Legumes? Abóboras, feijões, cenouras, espinafres, batatas. Que baralhação de legumes! E eu que o diga, que os sinto tão bem cá dentro. Roliços pedaços de legumes a boiar na água que inundou a minha minúscula cabeça.

28 de Setembro de 2008


Mais uma voltinha no carrossel dos esquisitos.


Cuidado para não enjoar!

25 de Agosto de 2008

Gira que gira e torna a girar.

Um passo. Depois outro. Assim iam, calmamente, os frágeis pés tacteando o cheiro doce da calçada. As pedras, já gastas, que trajavam a terra nua da vila, viam-se embrulhadas em pedaços frescos de verde, que, sem saberem, as tornavam cheias de vida. Distraída, quis saber que sapatos trazia. Tinham passado muitas horas desde que os calçara (e a cabeça, essa, nunca deu para muito). Inclinou mecanicamente a cabeça sobre o tronco curvo, e, surpreendida, avistou pelo menos uma dúzia de caracóis dormitando nos pedaços de verde que davam vida às pedras da calçada. Agachou-se, para ver melhor e apercebeu-se que muitos deles não podiam estar a descansar, moviam-se tão lentamente, que o seu movimento se confundia com o leve oscilar das suas conchas nos dias de muito vento. Assustada com a ideia de que poderia ter pisado metade daqueles animais, caso continuasse caminho sem ligar aos sapatos, pegou, delicadamente, naquele que se encontrava mais ao seu alcance, que, ao sentir o calor dos seus dedos enrugados, logo se mergulhou no conforto espiralado da sua concha, e pousou-o sob as folhas das flores coloridas que se plantaram à beira da calçada. Assim foi passando o tempo, enternecendo-se com os diversos padrões de todas aquelas conchas. Manchas amarelas, riscas pretas, pequenas bolas esverdeadas, ziguezagues em tons castanhos, a variedade era muita. Pousava-os sempre na margem de lá, não fosse esse o grande sonho dos pequenos animais, e murmurava para os mais teimosos : 'Despega-te daí, que ainda és esmigalhado por algum pé apressado!'.
O senhor João observava, encantado, a vila do cimo do seu terraço, quando reparou no que se passava na viela do lado.
- Maria!, Maria! O que andas a fazer? - gritou.
A Dona Maria, surpreendida com tanta gritaria, olhou, com os maiores olhos que tinha, para cima da sua cabeça, e ao ver o senhor João naquela euforia, disse, calmamente:
- Estou a tirar os caracóis do meio da rua, para que ninguém os pise.
- Deixa lá os caracóis, tens que vir cá acima ver isto!
- Isto o quê?
- A vila vista daqui parece um jogo de blocos, daqueles que fazíamos quando éramos pequenos!
- João, tu sabes bem que a minha dor na perna não me deixa subir escadas.
- Faz um esforço, vais ver que vale a pena.
Pouco convicta, mas com a curiosidade a subir-lhe o corpo, olhou em frente e rapidamente os seus olhos transmitiram à sua cabeça o que viam: o Monte Evereste, mais íngreme que nunca. Respirou fundo, e pisou o primeiro degrau. Levava o mundo dos sonhos na mão esquerda, e com a direita pedia ajuda ao corrimão. Cansada, mas com os olhos mais brilhantes que a água translucida que corria na fonte, subiu o último degrau.
Num silêncio harmonioso, sentaram-se os dois no muro do terraço, e, aquecidos pelos raios-de-luz que brotavam do final da tarde, foram, esquecidos do que eram, duas pequenas crianças, que brincavam, encantadas, com blocos feitos de sonho.

16 de Agosto de 2008

De que valeram os cinco-e-meio?

Fecha os olhos. Conta até 5. 5 1/2, vá.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Cinco-e-meio.
Ali estou eu, a olhar para ti com o meu maior sorriso. Não me vês? Ali! Hei??
Parece que já reparaste em mim. Começas a caminhar na minha direcção, sobre os teus passos calmos e despretensiosos. Esboças um sorriso.
Caminhas. Caminhas. Caminhas. Caminhas.
E eu cada vez mais Longe. Longe. Longe. Longe.
A tua cabeça desiste de manter o corpo acordado.
As pernas não se movem. O coração pára. Os olhos abrem-se.
Vais-me perdendo nas espirais de cores que rodam dentro dos teus olhos.
Sabes que nunca me vais encontrar, mas não choras.

Agora, de olhos bem abertos, vagueias por um conhecimento ainda desconhecido, um espaço assustador, mas que te fascina.



Como foi que deixaste que os teus olhos me perdessem?

15 de Julho de 2008

Palavras com cor.

A curiosidade perdeu-me. Não quero saber. A música que dança aos meus ouvidos já não me interessa. Dizem que ando louca. La porque trago o chapéu amarelo a cobrir-me as costas e não a aconchegar-me a minha frágil cabeça. Lá porque a guitarra me enche o coração e não me aperta os dedos. Lá porque do meu olhar crescem flores e não nasce a luz do dia. Lá porque... Dizem que ando louca. Não quero saber. Vou tirar uma fotografia àquela árvore, que sabe que não nasceu numa praia. É louca, decerto.

13 de Julho de 2008

Qual é o acorde da tua alma?

Nas linhas da minha mão escrevo o nome da tua alma, e imagino-a, funda e amarga, presa nas minhas muitas paredes. Sopra o primeiro grito mal se apagam as estrelas do céu, e assim fica, até que o vento quente da noite pinte o amarelo da lua. Aí, pára de gritar, escondendo a sua vida secreta e fugitiva. No silêncio cortante da noite, sonha e esquece as linhas da tua mão, onde pousa o nome da minha alma. Sonha e esquece o acorde agudo da minha alma, que por tantas vezes foi tocado pelas linhas marcadas da tua mão.

14 de Junho de 2008

A mulher de vermelho.

Todos os dias, sem excepções, chega curtos segundos antes das oito à estação dos comboios. A cobrir-lhe as pernas, traz sempre umas calças vermelhas bem justas, às quais se sobrepõe um comprido e imponente casaco, também ele vermelho.
Acende um cigarro e pede-lhe que a acompanhe até que apareça o comboio, e ele, obediente, não a deixa sozinha. Enquanto passeia a sua cor vermelha pelos azulejos já velhos da plataforma da estação, o cabelo comprido esvoaça-lhe timidamente sobre as costas, fazendo lembrar o pequeno melro na sua primeira aventura pela independência, enquanto o fumo do cigarro se desvanece na cor azul do céu. Passados sete minutos, os seus olhos pretos avistam o comboio no horizonte imaginário. Ela agradece ao companheiro de espera com uma última baforada, e, em modo de despedida, aconchega-o com o salto pontiagudo do sapato.
O comboio, quase vazio, ou não muito cheio, vai atracando suavemente, esperando que ela se aproxime da sua carruagem predilecta. O lugar inanimado do andar de baixo está ainda vazio, à espera que ela o avive com a sua cor vermelha ao longo da extensa viagem.
Não estranha o cheiro vazio que o comboio traz.
Para aqueles lados nunca foi muita gente.

4 de Maio de 2008

O (meu) céu, Mãe, és tu quem o faz.

Todas as manhãs e todas as noites.

2 de Março de 2008

Pode ser que me façam uma surpresa.


'Don't let it end.'

21 de Fevereiro de 2008

Estou sentada num canto do quarto, embrulhada em palavras. Ouço a chuva cair lá fora com tanta força que me arrepia. Vou até à varanda. Encosto o meu nariz à janela sarapintada pela água e ali me deixo ficar, até que o calor da minha respiração embacie os vidros de tal forma que os meus olhos vejam apenas uma densa névoa, e os meus dedos não resistam a rabiscar as coisas mais bizarras e irreais por todo o vidro.
Uma gaivota pousa na chaminé do prédio da frente. Fixo os meus olhos nos seus movimentos. Quase não se move, parece gostar da chuva. Além do cheiro a terra molhada que o trecho aberto da janela deixa entrar, sinto o teu cheiro, vindo não-sei-bem-de-onde. Fecho os olhos para o conseguir sentir melhor.
Já não chove. Os meus olhos continuam fixos na gaivota pousada na chaminé. Por momentos assusto-me. Sob ela já não existe o prédio azul e branco plantado em frente do meu. Existe agora uma casinha rasteira, feita de pedacinhos de tecido. Esboço um suspiro de alívio, quando nos vejo. Eu e tu ou tu e eu, como queiras.
Era a nossa casa. Vivíamos num mundo feito por nós. Tu imaginavas, e eu fazia. Utilizava os mais variados materiais para fazer qualquer coisa. E tu imaginavas qualquer coisa a todo o momento. Mesmo até enquanto dormias.
Fizemos a nossa casa, e tudo o que nela morava: os cortinados, os tapetes, as mantas, o telefone, os talheres e os pratos. Fazíamos a nossa roupa e a cor dos nossos cabelos dependia da temperatura lá fora. Não tínhamos mobília nem espelhos.
Consegui convencer-te a imaginares um gato sem pêlo e que não gostasse de perseguir passarinhos. Imaginaste-o em algodão, pintado de preto, com dois grandes botões azuis no lugar dos olhos e esparguete como fonte de equilíbrio. Eu dei-lhe um nome e tu vida. Depois quis fazer-te uma surpresa: um canário. Fi-lo com papel colorido em origami, como tu me ensinaste. Só não soube dar-lhe vida. Só tu tinhas essa magia, de dar vida às coisas.

Tinhas começado a imaginar personagens, todas elas com características únicas. Imaginavas xilofones que falavam, peixinhos encantados, anões coloridos e bruxas más. Também imaginavas pessoas. Pessoas com pernas demasiado compridas, ou com uma cabeça demasiado grande, com uma mão maior que outra ou quase sem polegar. Imaginavas as pessoas todas sem coração. Eu perguntava-te porquê e tu dizias-me que as pessoas eram más. Eu fazia as tuas personagens tal-e-qual como tu as imaginavas e tu pedias-me que lhes desse nomes. Era uma tarefa fácil: bastava olhar uns segundos para elas e concentrar-me na informação que os meus olhos transmitiam à minha cabeça. E depois, ao tratá-las pelo nome, conseguía perceber porque se chamavam assim e não de outra-forma-qualquer, como acontecia com a maioria dos objectos (porque é que o lápis se chama lápis e não nuvem?). Depois imaginavas histórias, que batias nas teclas de sabão da maquina de escrever, com medo de te esqueceres de algum pormenor importante. Inventavas passados e presentes, cruzavas vidas e histórias. Quando gostavas do resultado, corrias e ias buscar a tua câmara de filmar à prateleira dos objectos de plasticina. E ali mesmo fazias um filme, que me fazia rir, ou chorar, ou ter medo. E eu gostava sempre mais dos que me faziam saborear o sal líquido dos meus olhos.
Já cansados, sentávamo-nos no nosso cantinho aconchegado por mantas e almofadas e punhamo-lO a cantar para nós, no gira-discos de madeira, pintado a vermelho. Eu bebia um chá, tu um café. Não o acabavas sem acender um cigarro. Não me cansava de falar de como te faziam mal, no meu discurso demasiado saudável e assertivo. Davas-me um beijo na testa. Os meus olhos faziam-se o mais zangados que conseguíam (não era fácil). Às vezes corria atrás de ti para to tirar, mas tu escapavas-me sempre.
Pedias-me que te tocasse uma melodia no nosso piano,
feito com os pacotes do açúcar que nos adoçava os dias. Às vezes improvisava, outras, mesmo sem eu querer, os meus dedos rodopiavam numa dança mecânica, produzindo os sons exactos da flauta mágica. Nunca te cansavas de a ouvir, e pedias-me sempre que repetisse. Quando via que abrias demasiado a boca e fechavas demasiado os olhos, os meus dedos despediam-se das leves teclas do piano e os meus pés caminhavam na tua direcção. Enroscávamo-nos um no outro, e eu fazia-te festas no cabelo.
Os vidros estão demasiado embaciados para que eu consiga ver o que se passa lá fora. Desenterro a minha cabeça da janela e limpo o nariz frio com a manga da camisola.
Os meus olhos continuam fixos na gaivota pousada na chaminé.
A chuva continua a cair lá fora.

18 de Janeiro de 2008

O Sol de lá.

Sentei-me nas escadas brancas à espera do próximo comboio. Via as pessoas enquanto o Sol me ia aquecendo a pele, e ela pedia mais.
E mais. E mais. E mais.
Entrei no comboio e tive a certeza que hoje a chegada a casa seria bem diferente da dos outros dias: sentia-me muito mais quentinha.



Que saudades do sol a queimar-me a pele.

23 de Dezembro de 2007

Está frio aí dentro?

É tempo de abrir o gira-discos esquecido no canto da casa, e ouvir as melodias de natal que arrepiam e aquecem o coração.


15 de Dezembro de 2007

Encontros com gentes de outro tempo.

Seguía pela rua velha, cantarolando baixinho a sua melodia preferida.
- Ah.. Olá! Há tanto tempo que não te via. Está tudo a correr bem?
-Sim, e contigo?
-Também.
- [Silêncio.]
-Bem, então adeus!
- Adeus!

Mudou de melodia e continuou o seu caminho...
- Olá!
- Olá! Estás boa?
- Sim, e tu?
- Também! Estás tão gira!
- Oh..
- [Silêncio.]
- Então adeus.
- Adeus.

Seguiu em frente, mas desta vez sem qualquer melodia a sair-lhe por entre os dentes. As palavras congelaram, com tanto frio.

As conversas que antes eram tudo, tornaram-se em quase nada. As palavras somem-se das bocas. Não há movimento, não há som. O que há é apenas um silêncio embaraçante, um total congelar.
As gentes mudaram.
As melodias acabaram.
As conversas, essas, são agora sempre as mesmas.



Tenho pena que assim seja.

8 de Dezembro de 2007

Nouvelle Vague.

- I want to hear everyone screaming fuck as loud as you can. Un, deux, troi!

-
FUCK!!!




O concerto no casino foi genial.
E o grito soube-me mesmo bem.

4 de Dezembro de 2007

Donna Maria, A 'música para ser humano'.


O novo álbum dos Donna Maria, Música Para Ser Humano, já está pronto a ser levado para casa.
Cheira-me a um bom presente de Natal, a abarrotar de bonita música portuguesa.



O single de apresentação, 'Há amores assim':




Ouvindo: Musica para ser humano.

30 de Novembro de 2007


Hoje dou-lhe um tiro, amanhã mato-a de vez.




Ouvindo: Donna Maria- Fragmagens.

29 de Agosto de 2007

Desenlacemos as mãos.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.


(...)

Ricardo Reis


Ouvindo: The Cure- Lovesong.

10 de Agosto de 2007

O País das cores.

Descobri mais um cantinho de Portugal. E que cantinho...!









Isto é Portugal, o País das cores.
Aqui todas as cores se juntam numa dança sem corpo visível, que quase mata o olhar.
Aqui o céu é sempre azul. Pelo menos há quem o veja sempre assim.

É muito triste serem raros os portugueses que preferem conhecer o seu próprio país antes de mergulhar nas águas límpidas das Caraíbas, passear pelas românticas ruas de Paris, ou percorrer Veneza de gôndola.



E há ainda tantos cantinhos destes para descobrir aqui, no País das cores.


Ouvindo: Sia- Butterflies.

9 de Agosto de 2007




Just nineteen, this sucker's dream.






Ouvindo: Jorge Palma- A velhice.


28 de Julho de 2007

História de gente antiga.

Acabei de lamber uma gota de cerveja do meu dedo mindinho. Tenho que estar inspirada. Hoje não há desculpas.

Lá está ele, sentado no mesmo banco do jardim, debruçado sobre as pernas, como se algo importante se passasse debaixo dos seus pés. A bengala que segura com a mão esquerda suporta-o, evitando que a falta de equilíbrio que a idade traz vença, e que o pobre velho caía redondo na relva que tanto admira.
Lá estou eu, sentada naquela relva, observando-o por entre dois ramos da árvore grande do jardim. Observo-o há já alguns dias, carregada de falta-de-coragem para me aproximar.
Levanto-me, e inspiro o mais fundo que consigo. A coragem não me vai faltar desta vez. Desta vez não.
E vou torcendo para que o corpo não se vire contra a cabeça, ou a cabeça contra o corpo, e iniciem ali uma guerra aberta, na qual ganharia aquele que quisesse voltar para trás e sentar-se novamente naquela relva. Vou torcendo para que as pernas não tremam, fazendo com que todo o mecanismo inconsciente que a marcha suporta se transforme num conjunto de movimentos planeados, visualizados mentalmente e só depois realizados. Vou torcendo para que o coração não bata demasiado depressa, para não me obrigar a senti-lo na barriga, na testa, nos braços.
À medida que me aproximo penso na melhor forma de o arrancar daquele estado de concentração, que só ele percebe. Penso numa forma violenta: um grito. Penso melhor. Acho o grito demasiado violento. Penso numa tosse seca do género (tentei encontrar letras em forma de onomatopeia que a expressassem, não consegui. nunca me dei bem com a tradução de sons estranhos para letras.). Mas depois caio em mim e penso que o som dos meus passos bastará para captar a atenção do pobre velho.
Engano-me. Nem com os meus pequenos pés já dentro do seu campo de visão ele ergue a cabeça.
A minha mão, num movimento demasiado rápido e involuntário, pousa sobre o seu ombro direito, como que a gritar freneticamente 'Hei! Eu estou aqui!!'. É neste momento que o pobre homem deixa de olhar o chão que pisa e fixa os seus grandes olhos azuis nos meus pequenos olhos castanhos, que ficam ainda mais pequenos por todo o embaraço sentido.
Digo-lhe olá. Ele cospe também um seco olá, sem fazer qualquer tipo de pergunta acerca da minha origem. Sento-me na relva, em frente ao seu banco de estimação. E, passados alguns segundos de um silêncio cortante, pergunto-lhe se me pode contar a sua história. E ele conta.
O sol põe-se, e ele ainda conta a sua história. As primeiras estrelas nascem no céu liso daquela noite quente, e ele ainda conta a sua história. Todas as luzes do jardim se acendem, e ele ainda conta a sua história. Os primeiros raios de sol aparecem no horizonte, quando a boca do velho prenuncia palavras que me são demasiado conhecidas 'E aqui estou, sentado neste banco do jardim, debruçado sobre as minhas pernas, num estado de concentração que só eu percebo'.
Toda aquela noite sentada na relva do jardim, a ouvir aquele velho que há tanto tempo observo, me parece demasiado mágica para acabar só assim. Com sorte, trago dentro da mochila pregada de botões, a minha velha máquina de rolo. E assim fica registado este momento. Mas, para mim, não é o suficiente. Dou um beijo de gratidão na testa enrugada do velho. Recebo um sorriso. Parto numa correria incansável à procura da máquina de escrever.
Lembro-me da casa de fim-de-semana da minha tia. Lembro-me da minha infância passada naquele sótão, a brincar com borrachas que eram escovas-de-dentes, que eram afias, que eram dados. Lembro-me da máquina-de-escrever, que combinava tão bem com a secretária de pinho sobre a qual pousava. A minha corrida torna-se ainda mais rápida, avivada pelas bonitas memórias.
Avisto finalmente a casa de pedra da minha infância. Salto o portão. Ninguém em casa. Não me fico. Pego no primeiro objecto com aparência perigosa que os meus pequenos olhos avistam e espeto-o na janela de vidro, que dá para a cozinha. Subo as escadas de ferro em caracol o mais rápido que consigo. Ao ver a porta pequena dentro da casa de banho lembro-me do medo que ela me provocava. Faziam-me acreditar que era dentro daquela porta que moravam os anões da branca de neve. E eu acreditava. O medo apaga-se, e a memória também. Olho para o meu lado esquerdo. Era ali. Entro, e ah! lá estava ela, sobre a mesma secretária de pinho que a minha memória desenhara.
Sento-me na cadeira, também de pinho, que completa a secretária. O papel já está posto. Tem um aspecto velho e amarelo. Não me importo. Sento-me e escrevo. O sol volta-se a pôr, e eu ainda escrevo. As primeiras estrelas voltam a nascer, e eu ainda escrevo. Todas as luzes lá fora se acendem, e eu ainda escrevo. Os primeiros raios de sol voltam a aparecer no horizonte quando os meus dedos, já cansados, tocam em letras que me são demasiado conhecidas.
Guardo todas as folhas de papel velho e amarelo na mochila. Olho para o colchão encostado à parede. Parece-me acolhedor. Derrubo-o e deito-me mesmo assim.

As pernas e os braços não mexem mais, de tão satisfeitos que estão.
A cabeça não pensa mais, de tão satisfeita que está.
O coração, esse, continua a bater demasiado depressa.


Ouvindo: Radiohead- Idioteque.

10 de Julho de 2007

Três.

E pensar como mudei. Como mudámos. Como, tu próprio, mudaste.
Três anos é uma eternidade, para alguns. E um abrir- e -fechar- de- olhos, para outros.
Muitas vezes passo os olhos pelas tuas letras meio verdes, meio azuis. E fecho-os logo a seguir. Fico minutos com eles fechados, a imaginar-me de novo naquelas histórias, naqueles momentos. E custa, mas sabe tão bem. Sinto que cá dentro o coração se arrasta de um lado para o outro, entre o passado e o presente.
O passado e o presente não se entendem, discutem e maltratam-se tantas vezes. Mas o presente ganha sempre. E o coração pára sempre no meio do peito, ligeiramente inclinado para o lado esquerdo.


Três anos.

Parabéns, uma vez mais.


Ouvindo: Jorge Palma- Na terra dos sonhos.


6 de Maio de 2007

Espera por mim, Tempo.

Não me deixes ficar para trás, peço-te. Leva-me contigo nessa tua caminhada, que lentamente se vai transformando em corrida. Deixa-me ir ao teu lado. Nem um passo à frente, nem um passo atrás.

Acelera quando eu já não aguentar mais. Abranda quando eu sentir que nada me sabe tão bem.
Mas por favor, não me deixes perdida por aí, sentada numa nuvem que agora já não existe, por entre memórias que já não o são.

Um som já quase apagado entranha-se-me no ouvido esquerdo. Tick- tock, ouço. É o som dos teus passos. Já vais longe. Já passaste a minha nuvem.

Tenho que correr.
Espera por mim!



Ouvindo: Tick- tock. Tick- tock.



30 de Março de 2007

Placebo e Arctic Monkeys (de novo) em Portugal !

Oui, c'est vrai!

Placebo- dia 19 de Maio no festival Creamfields Lisboa

Arctic Monkeys- dia 18 de Julho no Coliseu de Lisboa



Algo me diz que este ano vou ficar sem dinheiro para comer.. !

19 de Fevereiro de 2007

Revivi-a durante um play

Não queria fazer o que devia fazer. Decidi-me então por abrir a tampinha e oferecer-lhe aquele. Aquele que dum lado é preto e do outro vermelho. E toquei levemente no play.
Fui buscar a caixa mágica. Não a abri, porque já é aberta. Assim custa menos, dizem. E é verdade. Não é fácil abrir uma caixa
destas.
E comecei. Fui tirando, aos poucos, todas as tiras de papel brilhante que enchiam a caixa, ao mesmo tempo que nelas entrava, cantarolando aquele play, que me tocava aos ouvidos. Entrei em todas, mesmo naquelas que não chegaram a fazer parte de mim. E como entrei, também saí. Quando dei por mim, e voltei a ouvir a minha voz novamente, estava rodeada de tiras de papel brilhante, espalhadas pelo chão de madeira do meu quarto. E a caixa mágica, que é aberta, tão vazia. E o play, que ainda não o tinha deixado de ser.
Arrumei todas as tiras de papel brilhante na caixa mágica. Tentei arrumá-las tal e qual como estavam antes de nelas entrar. Um tentar totalmente em vão. Mas a caixa, que é aberta, ficou mais que cheia, tal e qual como estava, e isso é o mais importante.
Antes de pegar nela, e levá-la para o seu sítio, roubei-lhe uma tira de papel brilhante, a mais brilhante de todas. Roubei-a e guardei-a no coração. Espero que não se importe. Quase de certeza que não irá notar, está mais que cheia, tal e qual como estava. A minha língua continuava a mexer-se, produzindo sons em uníssono com o
play.
Peguei na caixa das tiras de papel brilhante e levei-a para o seu sítio, aquecido por trapos que já ninguém usa.
Voltei ao chão do meu quarto. O som calou-se. O play transformou-se em stop. E a minha língua congelou.




Revivi-a durante um play. Dezoito anos, quase dezanove durante um simples toque no maior dos botões. Dezoito anos, quase dezanove durante doze músicas.
E ainda tive tempo de arrumar tudo o mais direitinho que consegui.
E olhem que arrumar uma caixa destas custa.
E fechá-la, ainda mais ...! (mas esta, esta é aberta.)


Ouvindo:
Donna Maria.



10 de Fevereiro de 2007

E ri-me.

Subi as escadas lentamente, assim com os dois pés a tocarem cada degrau, como fazem as crianças pequenas. Eram muitas, mas eu subi-as todinhas, sem tocar uma vez que fosse no corrimão. Sim, fiquei demasiado feliz, porque os corrimões são os meus melhores amigos, quando se trata de subir escadas. O céu estava azul, daquele azul clarinho que eu tanto gosto, e o sol brilhava como nunca.

Cheguei finalmente ao cimo das escadas, um grande manto verde se estendia diante mim. Que fiz? Deitei-me, rebolei-me, esperneei-me, dei cambalhotas. E ri-me. Ri-me às gargalhadas bem fortes. E ri-me ainda mais do meu próprio rir. Rir faz tão bem, sabes? E ali fui feliz. Ali, onde o verde da relva, o amarelo do sol, e o azul do céu se juntaram a todas as minhas cores. Sim, porque eu, às vezes, sou um arco-íris.


Fico por aqui, se não vem a chuva, e é uma chatice. E que me perdoem os meninos e as meninas da chuva, mas eu não consigo gostar nem um bocadinho dela.



Hoje não me apetece um final triste.