E mais. E mais. E mais.
Entrei no comboio e tive a certeza que hoje a chegada a casa seria bem diferente da dos outros dias: sentia-me muito mais quentinha.
Que saudades do sol a queimar-me a pele.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
(...)
Ricardo Reis
Ouvindo: The Cure- Lovesong.
Subi as escadas lentamente, assim com os dois pés a tocarem cada degrau, como fazem as crianças pequenas. Eram muitas, mas eu subi-as todinhas, sem tocar uma vez que fosse no corrimão. Sim, fiquei demasiado feliz, porque os corrimões são os meus melhores amigos, quando se trata de subir escadas. O céu estava azul, daquele azul clarinho que eu tanto gosto, e o sol brilhava como nunca.
Cheguei finalmente ao cimo das escadas, um grande manto verde se estendia diante mim. Que fiz? Deitei-me, rebolei-me, esperneei-me, dei cambalhotas. E ri-me. Ri-me às gargalhadas bem fortes. E ri-me ainda mais do meu próprio rir. Rir faz tão bem, sabes? E ali fui feliz. Ali, onde o verde da relva, o amarelo do sol, e o azul do céu se juntaram a todas as minhas cores. Sim, porque eu, às vezes, sou um arco-íris.
Fico por aqui, se não vem a chuva, e é uma chatice. E que me perdoem os meninos e as meninas da chuva, mas eu não consigo gostar nem um bocadinho dela.
Hoje não me apetece um final triste.